segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Impretérito é o passado


podia ter
me entregado menos 
ter sorrido menos 
ter chorado menos 
não conhecer o amor...

podia ter 
me arriscado menos 
me jogado menos 
invadido menos 
não ter sentido dor...

e saber teorizar sobre tudo 
aprender por “leitura e conselhos” 
podia ter vivido na superficialidade das cascas 
e carregar hoje comigo a pergunta “como seria sido?” 
ao invés de meter a cara na vida vivida...

podia ser 
um pouco menos romântico 
um pouco menos sonhador 
ter visto menos vezes 
o sol se por 
o sol no mar 
o sol nascer 
e me acalmar...

podia ter 
aceitado a idéia 
de crescer 
de amadurecer 
de virar “gente grande” 
e me deixar envelhecer...

podia ter 
mergulhado menos 
me jogado menos 
não ter ido até o fim 
e ter guardadas milhões de duvidas em mim...

podia ter falado menos 
me mostrado menos 
me exposto menos 
e me sentir enclausurado no meu próprio “esconderijo”...

podia ter bebido menos 
fumado menos 
ter amado menos 
ter deixado que o medo 
tomasse a frente dos meus impulsos mais sinceros...

podia ter aceitado mais 
questionado menos 
discutido menos 
conversado menos 
e apagar a impressão digital da minha alma pro mundo...

eu podia ter sido 
quem as pessoas queriam que eu fosse 
poderia ser menos doce 
menos louco 
menos “over” 
menos “incoerente” 
menos radical 
menos sacana 
menos brincalhão 
só pra que todo mundo me achasse um cara “normal”...

podia ser 
um pouco menos polemico 
um pouco menos boêmio 
falar um pouco mais baixo 
podia ter mentido mais 
sido menos transparente 

porque assim eu me pareceria com quase toda a gente

mas eu sou o que sou 
e não to nem um pouco a fim de mudar 
de me forçar me violentar 
só pra agradar aos trogloditas da crueldade moderna e morna 
nem quente nem fria insossa... 
característica dos “intelectualóides” babacas 
donos da teoria da auto-conspiração 
mestres do corte do auto-boicote e de metades 
das fugas das mentiras do medo

e continuo tendo medo de ter medo...

e sempre que me der vontade 
publico minha identidade 
naquela parede amarela 
bem na frente da sua janela 
com letras vermelhas garrafais 
sem medo de me expor 
nem menos nem mais 

eu.

e como não sou dono do amanha 
prefiro beber o hoje 
liquido 
acessível 
disponível 
possível 
néctar 
cuja validade expira hoje 
à meia noite em ponto 
e que não se recicla 
perde-se em seguida 
em segundos 
vira passado 
fotografia gasosa 
que vai morar em algum álbum 
que mora dentro de alguma gaveta 
que mora dentro de algum armário 
que mora dentro de alguma casa 
que fica em algum bairro 
que faz parte de alguma cidade 
que é pedaço de um país 
que eu felizmente não conheço 
só sei que se chama tropeço...

e sei também que amanhã não sei se vou estar aqui 
pra beber o próximo cálice 
e hoje quero beber apenas o de hoje 
nada menos nada mais...

então vou caçar lua pela rua. 
e depois provar a tua carne 
nua 
crua 
quente 
deliciosamente 
tez...


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