
podia ter
me entregado menos
ter sorrido menos
ter chorado menos
não conhecer o amor...
podia ter
me arriscado menos
me jogado menos
invadido menos
não ter sentido dor...
e saber teorizar sobre tudo
aprender por “leitura e conselhos”
podia ter vivido na superficialidade das
cascas
e carregar hoje comigo a pergunta “como seria
sido?”
ao invés de meter a cara na vida vivida...
podia ser
um pouco menos romântico
um pouco menos sonhador
ter visto menos vezes
o sol se por
o sol no mar
o sol nascer
e me acalmar...
podia ter
aceitado a idéia
de crescer
de amadurecer
de virar “gente grande”
e me deixar envelhecer...
podia ter
mergulhado menos
me jogado menos
não ter ido até o fim
e ter guardadas milhões de duvidas em mim...
podia ter falado menos
me mostrado menos
me exposto menos
e me sentir enclausurado no meu próprio
“esconderijo”...
podia ter bebido menos
fumado menos
ter amado menos
ter deixado que o medo
tomasse a frente dos meus impulsos mais sinceros...
podia ter aceitado mais
questionado menos
discutido menos
conversado menos
e apagar a impressão digital da minha alma pro
mundo...
eu podia ter sido
quem as pessoas queriam que eu fosse
poderia ser menos doce
menos louco
menos “over”
menos “incoerente”
menos radical
menos sacana
menos brincalhão
só pra que todo mundo me achasse um cara
“normal”...
podia ser
um pouco menos polemico
um pouco menos boêmio
falar um pouco mais baixo
podia ter mentido mais
sido menos transparente
porque assim eu me pareceria com quase toda a gente
mas eu sou o que sou
e não to nem um pouco a fim de mudar
de me forçar me violentar
só pra agradar aos trogloditas da crueldade moderna
e morna
nem quente nem fria insossa...
característica dos “intelectualóides” babacas
donos da teoria da auto-conspiração
mestres do corte do auto-boicote e de metades
das fugas das mentiras do medo
e continuo tendo medo de ter medo...
e sempre que me der vontade
publico minha identidade
naquela parede amarela
bem na frente da sua janela
com letras vermelhas garrafais
sem medo de me expor
nem menos nem mais
eu.
e como não sou dono do amanha
prefiro beber o hoje
liquido
acessível
disponível
possível
néctar
cuja validade expira hoje
à meia noite em ponto
e que não se recicla
perde-se em seguida
em segundos
vira passado
fotografia gasosa
que vai morar em algum álbum
que mora dentro de alguma gaveta
que mora dentro de algum armário
que mora dentro de alguma casa
que fica em algum bairro
que faz parte de alguma cidade
que é pedaço de um país
que eu felizmente não conheço
só sei que se chama tropeço...
e sei também que amanhã não sei se vou estar
aqui
pra beber o próximo cálice
e hoje quero beber apenas o de hoje
nada menos nada mais...
então vou caçar lua pela rua.
e depois provar a tua carne
nua
crua
quente
deliciosamente
tez...