A cara de moleque, dizem, continua a mesma...
As músicas, ainda são aquelas dos bons tempos,
Os arranhões estão sarados, resolvidos, não doem mais!
A sensação de velocidade é quase palpável,
O mundo gira depressa,
“Vert, 45 degree”, 2 fast 4 me...
Frio demais pro meu gosto, duro demais pro meu rosto,
E eu abandono o posto, que nunca me foi imposto,
Eu desisto do desgosto, definitivamente!
E não pergunto mais nada pra vida,
Porque sei, não existem respostas...
O que há de constante é a aposta,
E eu aposto apenas no que gosto,
Eu apenas vivo,
Moleque, serelepe, sapeca,
Levado da breca,
“Day by day”,
Todo dia um tapa, um chopp, um incenso,
E que daqui pra frente,
Que cada dia seja mais...
[intenso]
E assim completo meus 5 anos...
Cheio de sonhos, de planos,
Liberto de muitos enganos,
Alguns amigos por perto,
Outros chegando, bem vindos!
O coração, os olhos e ouvidos estão bem abertos,
Pra aprender a beber mais o bom de tudo,
Pra conseguir escutar o mundo,
Como quem tem uma missão a cumprir,
E quer descobrir,
Mais...
...
Toda noite eu sei que amanha,
Tem manha, flor, pássaro e sol,
[ou chuva, não importa, o que vier é bem vindo]
E minha cadela, fiel,
Me acordando, sorrindo pra mim...
Ela sempre sorri, invariavelmente, todos os dias,
Protege a casa sem covardia,
Sem medos,
Sem segredos,
ela late, ela faz alarde,
E a gente sempre sabe,
O que ela pensa...
Ela sempre abana o rabo, sempre quer brincadeira,
Ela, sempre faceira,
Ela jamais se deprime,
Ela já não tem mais crises, venceu a epilepsia,
Superou a doença “incurável” dos “humanos”,
É uma lição de vida a cada manha...
E eu aprendo com ela todo dia,
Muito mais do que eu aprenderia,
Em qualquer das faculdades pelas quais passei...
...
Então quer dizer que o “serumano” é o ser “inteligente” do planeta?
Então hoje eu quero “emburrecer”!
Nada de livros, teorias,
Nada de diplomas, nada de “falsas sabedorias”,
Golfadas de “cultura”,
Nada de “postura” pra inglês ver...
Hoje, tudo isso fica debaixo do tapete,
E o tapete fica debaixo do meu pé,
Soterrei tudo que segrega e segmenta,
Tudo que rotula e separa os seres humanos por “classes”,
Hoje é uma planície...
O horizonte ta igual pra todo mundo, acessível, visível...
Hoje é dia de anarquia, de nivelamento,
Dia de acabar o tormento,
E de se viver em paz...
E eu quero me despir de tudo isto,
Até mesmo das minhas roupas,
Pra olhar pra tudo com a simplicidade de um matuto...
...
O matuto... Este ser que é o dono do mato,
Que vive de pés descalços,
Em contato direto com a terra,
Sob o sol, sem camisa,
Sem choramingar,
Ele trabalha e canta,
Enquanto cultiva a terra...
Ele vive do cio da terra,
Cuida dos bichos, bebe da água de nascente,
Água pura, corrente,
A mesma que rega a sua horta,
Da qual ele tira alimento e sustento...
Come o que planta, vende a sobra na “venda”,
Ou troca por sal, pinga e “mirrola”...
É tudo que ele precisa,
Do mundo além do seu mundo...
Enxada e foice são as suas armas,
Armas que não ferem,
Armas fertilizantes,
O resultado de sua guerra é o nascer de uma flor...
E a sua luta é pura dignidade...
E mesmo frente às dificuldades,
Ele jamais se deprime,
Afinal, ele não é urbano,
Muito menos insano,
Não conhece o caos, as paranóias, a loucura,
Não tem tempo pra frescuras,
E ainda guarda no peito a candura de moço,
E carrega um sorriso que vai do nariz até o pescoço,
O resto, pro fundo do poço,
Ele se satisfaz com muito pouco,
Um café no copo de geléia de mocotó,
Um cheiro da nega, um carinho da cria,
Noite sem luz,
A lua é seu lume, ele dança com lobos,
Vagalumes e estrelas no céu,
Nada de eletricidade...
A rede e a viola, o embalo e o som,
Surgem novas canções,
Todos os dias,
Uma canção pra cada dia,
Canções que todo dia ele faz e que sempre se esquece,
Quando amanhece...
...
Tudo que eu sei agora,
É que não há o que temer,
A não ser o medo,
Há que se temer o medo,
Eu continuo tendo muito,
Muito medo
De ter
Medo.