segunda-feira, 12 de outubro de 2020

QUANTO TEMPO DURA UM SEGUNDO?

 



Naquele segundo,
Ele caminhava como se tudo fosse apenas silêncio.
Todos os sons à sua volta pareciam encaixotados,
tal qual uma câmara de eco,
com milhões de molas,
cansadas de tensionar e tensionar e tensionar...
Todos os sons lhe eram familiares, quase conhecidos.
Havia ruídos, havia tons, mas ele não ouvia nada...
Loop
Não sabia o que era começo, aonde era meio, muito menos fim,
Longe, cedo ou tarde, tudo se repetia, se repetia, se repetia...
loop
E ele apenas estava ali,
Por um segundo..
A cabeça lhe parecia tão grande,
que talvez o corpo não mais a pudesse sustentar,
e este momento, de a sua cabeça cair, parecia muito próximo...
Por um segundo...
Nada mais cabia dentro daquele cérebro comprimido,
Mas mesmo assim,
cada vez mais as coisas entravam,
por seus ouvidos, nariz, boca, olhos,
entravam sem pedir licença,
entravam,
entravam,
entravam...
Doía, latejava, entalava.
Passos pesados,
ele sentia o impacto de suas passadas,
a cada metro percorrido...
o pescoço estava dormente, os pés ardidos,
E ele movimentava os braços tal qual equilibrista de circo,
caminhando sobre um cabo de aço,
a 300 metros de altura com tamanha maestria,
que todas as dores que ele sentia se dividiam lado a lado,
dois pesos, uma medida,
ele se equilibrava...
Ele tentava falar com as pessoas,
recebia sorrisos distantes de troco,
de trocado, de esmola,
ele mendigava alguma atenção,
acreditava que dividir era algo possível,
que o egoísmo, a raiva, o orgulho, a avareza,
e todos os demais sentimentos desprezíveis,
que os seres humanos carregam como se fossem teclas de um piano de cauda,
talvez fossem inimigos derrotáveis,
aquele mundo do John e da Yoko poderia ser possível, claro que sim!
A solução pra tudo lhe parecia tão simples...
Mas,
Faltava alguma coisa.
Alguma coisa nele.
Faltava alguma coisa nas pessoas.
Faltava alguma coisa no estranho contexto,
que se chama mundo...
Ele carregava todas as dores do mundo.
Sensação esquisita...
Havia dor em cada passo.
Havia compasso, mas um compasso sem som...
As dores, não eram as suas, ou talvez as suas também,
mas havia muito mais.
Ele não compreendia...
A rua parecia não ter fim, não havia curvas,
cruzamentos, esquinas ou alternativas,
apenas paredes chapiscadas de cimento grosso,
à sua esquerda e à sua direita.
Ele se mantinha longe das paredes.
O funil que ele vislumbrava parecia distanciar-se,
no mesmo ritmo, na mesma velocidade,
e por algumas vezes ele tropeçou,
olhar fixado no nada...
Tudo girava anti-horário,
e as palavras se embaralhavam em sua cabeça,
que há muito deixara de raciocinar,
de forma ordenada e “politicamente correta”,
Percebeu então que lhe faltava o exercício de pensar.
Mas... Pensar em que?
Aquela noite não teria fim mesmo,
então pra que se preocupar?
Tentou balbuciar algo, uma frase,
uma palavra, alguma coisa que fizesse sentido,
mas... nada saiu!
E aquele segundo lhe pareceu tão eterno,
que ele julgou-o imortal.
Naquele instante,
ele sonhou,
Só naquele instante.
e naquele segundo, ele amou,
ouviu sons, viu no céu alguma cor,
mas, logo em seguida,
ele acordou e descobriu-se só.
E o mundo voltou a ser preto e branco.
Mas ele jamais entendeu,
aquele segundo.
Quanto tempo dura um segundo?
(CLAUDIO LOURO) - 2011

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